As decisões públicas moldam o rumo de uma sociedade. Muitas vezes, elas esbarram em impasses, resistências e dinâmicas invisíveis, que desafiam tanto os gestores quanto a população. Nós acreditamos que a constelação sistêmica pode ser uma abordagem diferenciada para iluminar estes desafios, trazendo mais clareza e consciência coletiva aos processos de escolha e construção de políticas.
O que é constelação sistêmica e por que olhar para sistemas?
A constelação sistêmica é uma prática que busca revelar as dinâmicas ocultas nos sistemas humanos. Entendemos que “sistema” é tudo aquilo que envolve diferentes pessoas interagindo, com vínculos de pertencimento, papéis e responsabilidades. Seja nas famílias, nas empresas ou na esfera pública, padrões repetitivos surgem quando algo ou alguém permanece excluído, ignorado ou não reconhecido.
Essas dinâmicas, muitas vezes, dificultam o avanço de projetos, travam cooperações e perpetuam conflitos. O olhar sistêmico se propõe a investigar essas causas “invisíveis”, trazendo-as à tona de forma estruturada e respeitosa. Quando aplicamos isso à decisão pública, criamos oportunidades para mais escuta, integração e compreensão das necessidades de todos os envolvidos.
O que está excluído, insiste em retornar até ser visto.
Como podemos aplicar a constelação sistêmica em decisões públicas?
Ao olharmos para o campo da gestão pública, percebemos uma série de situações que podem se beneficiar da abordagem sistêmica. Entre elas:
- Conflitos entre diferentes setores do poder público ou entre órgãos.
- Projetos travados por boicotes silenciosos ou falta de engajamento.
- Demandas de diversos segmentos sociais disputando prioridade.
- Decisões que parecem “corretas”, mas não geram adesão da população.
- Processos participativos com baixo envolvimento ou excesso de polarização.
Nessas situações, propomos as seguintes práticas:
1. Mapeamento dos elementos do sistema
Antes de qualquer reunião ou fórum de decisão, identificamos todos os segmentos vinculados à questão: secretarias, grupos comunitários, setores econômicos, sujeitos impactados direta ou indiretamente. Muitas vezes, este simples mapeamento já revela exclusões e pontos cegos.
2. Representação no campo
Utilizamos a representação simbólica dos elementos do sistema. Por meio de pessoas, objetos ou outros recursos disponíveis, cada segmento “entra em campo”. Isso pode ser feito em reuniões presenciais, workshops ou círculos de diálogo.

Cada representante observa como se sente em seu lugar, o que percebe dos outros e quais movimentos internos surgem. Muitas vezes, situações de desconforto, exclusão ou atrito aparecem sem que palavras sejam ditas.
3. Pesquisa de vínculos e lealdades ocultas
Investigamos se a resistência de um grupo está ligada a eventos passados, decisões não reconhecidas ou temas tabu. Pode haver vínculos inconscientes com antigos líderes, projetos mal resolvidos ou injustiças históricas. Ao dar voz a esses aspectos, surgem possibilidades de reconciliação e construção coletiva.
4. Movimentação rumo ao equilíbrio
Buscamos pequenas mudanças de posição simbólica, frases de reconhecimento e gestos de inclusão. Quando todos se sentem vistos e suas narrativas reconhecidas, mesmo que parcialmente, o campo de decisão se abre para novas soluções, muitas vezes inesperadas. Observamos que, nessas horas, o consenso se torna mais simples, e os projetos fluem com mais naturalidade.
Quais benefícios percebemos ao usar constelação sistêmica em decisões públicas?
Constatação comum em processos sistêmicos é a redução da polarização e dos conflitos arraigados. A escuta atenta, associada à representação simbólica dos interesses, permite que pontos de vista antes ignorados sejam trazidos à tona de modo respeitoso.
- Aceleração na tomada de decisões complexas.
- Reconfiguração de relações interpessoais entre gestores e sociedade.
- Ampliação da confiança e do senso de pertencimento dos envolvidos.
- Identificação de soluções inovadoras, que unem interesses aparentemente opostos.
- Maior engajamento na execução posterior das decisões tomadas.
Esses benefícios acontecem não porque a constelação “resolve” magicamente os impasses, mas porque ela cria condições para que as pessoas sintam-se vistas, ouvidas e pertencentes ao sistema. Isso, por si só, já transforma o campo de atuação coletiva.
Por que a consciência sistêmica é um diferencial no serviço público?
Em nossa experiência, a consciência sistêmica no serviço público evita que decisões sejam tomadas apenas por critérios técnicos ou políticos. Passamos a incluir no processo o impacto emocional e social, e a considerar as histórias por trás das demandas.
Ao integrar diferentes perspectivas, encontramos sustentação para decisões mais maduras e estáveis no longo prazo. O que parece ser apenas um método de gestão de conflitos, revela-se uma poderosa ferramenta de transformação cultural e institucional.
Incluir não é ceder, mas respeitar o espaço de cada parte envolvida.
Como constelações públicas podem ser conduzidas?
A condução pode se adaptar a pequenos grupos, grandes audiências ou processos internos de órgãos públicos. Sugerimos alguns passos para garantir um processo produtivo:
- Definir claramente o tema ou a questão a ser trabalhada.
- Escolher representantes imparciais e diversificados para cada segmento envolvido.
- Favorecer ambiente de escuta segura, sem julgamentos.
- Permitir tempo para que cada representante compartilhe impressões, sensações e percepções.
- Registrar os insights emergentes e propor, ao final, encaminhamentos que respeitem as novas percepções do campo sistêmico.

Observamos ainda que, ao trazer representantes de grupos muitas vezes negligenciados, como minorias, servidores de base ou membros da sociedade civil —, ampliamos o olhar do grupo decisório e construímos decisões com mais legitimidade.
O papel do facilitador na constelação para decisões públicas
O facilitador é quem conduz o processo, garante o respeito ao método e estimula a postura de escuta por parte dos participantes. Nós entendemos que ele deve ter preparo específico para lidar com dinâmicas grupais, neutralidade diante dos temas e sensibilidade para equilibrar falas e emoções que surgem no campo.
Ao longo de processos coletivos, já observamos situações delicadas emergirem, como dores históricas, exclusões e antigos traumas sociais. O facilitador não busca consertar tais histórias, mas ajudar o grupo a reconhecer seus efeitos no presente, abrindo espaço para novas possibilidades.
Como trazer constelação sistêmica para a cultura da decisão pública?
Trata-se, acima de tudo, de criar uma cultura de escuta qualificada, abertura à diversidade e disposição ao aprendizado coletivo. Adotar práticas de constelação em decisões públicas é reconhecer a complexidade humana nos processos sociais e assumir o compromisso de incluir realidades muitas vezes silenciadas.
Podemos começar por pequenas iniciativas, como workshops em grupos de trabalho, círculos de diálogo participativo ou consultorias pontuais em temas que apresentam maior nível de impasse. O segredo está em manter o olhar largo e honesto, sempre disposto a aprender com aquilo que emerge do campo coletivo.
Conclusão
Constelação sistêmica não é uma ferramenta milagrosa ou modismo. É, antes de tudo, um convite para ampliarmos a consciência sobre como decidimos, para quem decidimos e a partir de que histórias coletivas conduzimos nossas escolhas. Ao integrar essa abordagem à gestão pública, damos um grande passo para sociedades mais maduras, justas e reconciliadas.
Perguntas frequentes sobre constelação sistêmica em decisões públicas
O que é constelação sistêmica pública?
Constelação sistêmica pública é a aplicação da constelação sistêmica em contextos coletivos, especialmente na gestão de políticas e decisões sociais. Ela busca revelar as dinâmicas ocultas entre diferentes grupos e interesses, facilitando escuta, reconhecimento e integração dos envolvidos nas questões públicas.
Como funciona a constelação para decisões públicas?
Funciona a partir da representação simbólica dos elementos do sistema envolvido em uma decisão pública. Cada segmento, órgão ou grupo afetado é representado, e suas relações, sensações e movimentos são observados. Essa dinâmica propicia a identificação de tensões, exclusões ou desequilíbrios, sugerindo caminhos para soluções mais integradoras.
Quais os benefícios da constelação sistêmica?
Entre os principais benefícios estão a redução de conflitos, melhoria do diálogo, engajamento ampliado e descobertas de soluções criativas. A constelação permite também aumentar a compreensão mútua entre os grupos, gerando confiança para a implementação das decisões.
Quando usar constelação em decisões públicas?
Indicamos o uso quando houver impasses prolongados, baixos índices de participação, disputas recorrentes ou falta de adesão às decisões tomadas. Em contextos que exigem integração de múltiplos interesses e visão ampla dos impactos, a constelação se mostra muito útil.
Constelação sistêmica é reconhecida legalmente?
No Brasil, a constelação sistêmica já foi utilizada como prática de apoio em determinadas esferas do Judiciário, mas não possui regulamentação legal específica. Seu uso em decisões públicas depende da iniciativa dos gestores e da abertura dos grupos envolvidos ao método.
